Donanemabe e Alzheimer

Donanemabe, Kisunla, no tratamento da doença de Alzheimer

O donanemabe, nome comercial Kisunla, é um anticorpo anti-amiloide aprovado para pacientes selecionados com Alzheimer inicial e tem como objetivo reduzir de forma importante a carga de placas amiloides.

Por Dr. Cesar Castello Branco Lopes, neurologistaCRM-SP 193861 | RQE 94138Revisado em 15 de agosto de 2026

O donanemabe, nome comercial Kisunla, é uma das novas medicações desenvolvidas para o tratamento da doença de Alzheimer em fase inicial. Ele é um anticorpo monoclonal anti-amiloide e foi aprovado no Brasil para pacientes que preencham critérios clínicos, biológicos e de segurança específicos.

Como o donanemabe funciona

Na doença de Alzheimer, a proteína beta-amiloide se acumula progressivamente no cérebro e participa da formação de placas.

O donanemabe reconhece uma forma modificada de beta-amiloide presente principalmente em placas mais maduras e consolidadas. Depois de se ligar a esse material, facilita sua remoção pelo sistema imune do cérebro.

Nos estudos, a redução da carga amiloide foi bastante expressiva. Muitos pacientes chegaram a níveis considerados compatíveis com depuração da placa no PET amiloide.

Para quem o donanemabe é indicado

O tratamento foi estudado em pessoas com doença de Alzheimer sintomática em fase inicial. Isso inclui comprometimento cognitivo leve devido ao Alzheimer e demência leve, quando ainda existe preservação importante da autonomia.

Não é uma medicação aprovada para fases moderadas ou avançadas. O objetivo é intervir numa fase em que ainda existe uma quantidade maior de redes cerebrais preservadas.

Também é necessário confirmar a patologia amiloide antes do tratamento. O paciente precisa ter um quadro clínico compatível e a alteração biológica que é alvo da medicação.

A avaliação antes do tratamento

A indicação começa por um diagnóstico bem construído. A gente precisa entender o padrão do declínio cognitivo, avaliar a funcionalidade e investigar outras causas que possam explicar ou contribuir para os sintomas.

Depois confirmamos a presença de amiloide por biomarcadores adequados. PET amiloide e líquor são métodos bem estabelecidos. Exames sanguíneos vêm ganhando espaço e podem participar da investigação conforme o teste e o contexto clínico.

A seleção também inclui ressonância magnética, avaliação clínica e genotipagem de APOE dentro dos critérios atuais aprovados no Brasil.

O que os estudos mostraram

No estudo TRAILBLAZER-ALZ 2, os pacientes que receberam donanemabe apresentaram uma progressão cognitiva e funcional mais lenta do que os pacientes que receberam placebo ao longo de aproximadamente 18 meses.

O benefício foi real, mas ainda modesto. Os pacientes continuaram progredindo. A medicação não cura Alzheimer, não faz a memória voltar ao normal e não recupera neurônios perdidos.

Como a doença de Alzheimer pode evoluir durante muitos anos, ainda precisamos entender melhor o que essa redução da velocidade de progressão representa depois de períodos mais longos.

Como o donanemabe é administrado

O donanemabe é administrado por via intravenosa uma vez a cada quatro semanas. No esquema aprovado no Brasil, as primeiras doses são menores e depois se atinge a dose de manutenção.

Isso exige comparecimento regular a um centro de infusão e acompanhamento médico durante o período de tratamento.

O tratamento pode terminar depois da depuração amiloide

Uma característica do donanemabe é que o tratamento tem um objetivo biológico de reduzir a placa amiloide a níveis muito baixos.

Quando a depuração é acompanhada por método validado, a medicação pode ser interrompida depois que esse objetivo é atingido. No registro brasileiro, quando esse acompanhamento não é possível, o tratamento é previsto por até 18 meses.

Na prática, muitos pacientes atingem redução importante da carga amiloide dentro de aproximadamente 12 a 18 meses, mas o tempo não é exatamente igual para todos.

O que acontece vários anos depois da interrupção ainda está sendo estudado. O amiloide pode voltar a se acumular lentamente, e o acompanhamento de longo prazo vai ajudar a definir se alguns pacientes precisarão de nova avaliação ou novos ciclos no futuro.

Riscos e acompanhamento

O principal grupo de efeitos adversos são as ARIA, alterações que podem aparecer como edema ou pequenas alterações hemorrágicas no cérebro. Muitos episódios são assintomáticos e são encontrados nas ressonâncias de acompanhamento.

Algumas pessoas podem apresentar dor de cabeça, confusão, tontura ou outros sintomas neurológicos. Eventos graves são menos frequentes, mas precisam ser considerados na decisão.

Por isso, o tratamento exige ressonância antes do início, monitoramento durante as infusões e uma avaliação cuidadosa do risco individual.

Acesso e decisão individual

O donanemabe já tem registro e disponibilidade na rede privada brasileira, mas ainda é um tratamento caro e que depende de uma estrutura especializada para diagnóstico, infusão e acompanhamento.

Para alguns pacientes em fase muito inicial, reduzir a velocidade do declínio pode ter um significado relevante porque eles ainda preservam trabalho, atividades sociais e independência.

A decisão precisa considerar benefício esperado, risco, custo, logística e objetivos do paciente e da família. É uma nova possibilidade de tratamento, mas não é uma indicação automática para toda pessoa com Alzheimer.

Perguntas frequentes

Donanemabe cura Alzheimer?

Não. Ele pode reduzir de forma modesta a velocidade de progressão em pacientes selecionados com doença inicial.

Por quanto tempo o tratamento é feito?

O tratamento pode ser interrompido quando se documenta depuração suficiente da placa amiloide. Quando esse monitoramento não é possível, o registro brasileiro prevê uso por até 18 meses.

Como é feita a aplicação?

A medicação é administrada por via intravenosa uma vez a cada quatro semanas.

Referências

Seleção de referências utilizadas para revisão e atualização do conteúdo.

Dr. Cesar Castello Branco Lopes, neurologista

Dr. Cesar Castello Branco Lopes

Médico neurologista, CRM-SP 193861, RQE 94138. Atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, com foco em neurologia cognitiva, memória e demências.

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