O lecanemabe, nome comercial Leqembi, é uma das novas medicações anti-amiloide utilizadas no tratamento da doença de Alzheimer em fase inicial. Ele recebeu registro no Brasil no final de 2025 e passou a fazer parte das opções terapêuticas disponíveis em 2026 para pacientes que preencham critérios específicos.
Como o lecanemabe funciona
Na doença de Alzheimer, formas da proteína beta-amiloide começam a se agregar e, ao longo do tempo, participam da formação das placas amiloides no cérebro.
O lecanemabe é um anticorpo monoclonal com afinidade importante por protofibrilas de beta-amiloide, formas agregadas que ainda são relativamente solúveis e aparecem numa etapa anterior às placas mais compactas. Ele também se liga ao amiloide fibrilar e facilita sua remoção.
De uma forma simples, a medicação ajuda o sistema imune do cérebro a reconhecer e retirar parte desse material amiloide. Nos estudos, essa remoção foi acompanhada de uma redução importante da carga amiloide medida por exames de imagem.
Para quem o tratamento é indicado
O lecanemabe foi estudado em pessoas com doença de Alzheimer ainda em fase inicial. A indicação inclui comprometimento cognitivo leve devido ao Alzheimer e demência leve, quando a pessoa ainda preserva boa parte da sua autonomia.
Não é uma medicação para Alzheimer moderado ou avançado. A ideia é agir numa fase em que ainda existe uma quantidade maior de redes cerebrais preservadas, porque retirar amiloide não recupera neurônios que já foram perdidos.
No Brasil, a indicação aprovada também exige patologia amiloide confirmada e considera o genótipo APOE dentro dos critérios de segurança.
O diagnóstico precisa estar bem estabelecido
Antes de indicar o tratamento, a gente precisa confirmar que existe um declínio cognitivo compatível com doença de Alzheimer e investigar outras causas que possam explicar o quadro.
Depois disso, é necessário demonstrar a patologia amiloide. PET amiloide e biomarcadores no líquor são métodos bem estabelecidos para essa confirmação. Biomarcadores sanguíneos estão ganhando espaço e podem ajudar dependendo do teste utilizado e do protocolo do serviço.
A seleção também inclui ressonância magnética e avaliação de fatores que aumentam o risco de eventos adversos.
O que os estudos mostraram
O estudo Clarity AD acompanhou pessoas com Alzheimer inicial durante 18 meses. O grupo que recebeu lecanemabe apresentou menor declínio cognitivo e funcional do que o grupo placebo.
O efeito foi modesto. Os pacientes tratados continuaram apresentando progressão da doença, mas essa progressão aconteceu de forma um pouco mais lenta em média.
O lecanemabe não cura Alzheimer, não faz a memória voltar ao normal e não recupera neurônios que já foram perdidos. O objetivo do tratamento é reduzir a velocidade de progressão.
Como a doença dura muitos anos, ainda estamos aprendendo qual será o impacto acumulado do tratamento no longo prazo. Dados de extensão sugerem manutenção do benefício, mas o tamanho dessa diferença depois de vários anos ainda precisa de acompanhamento.
Como a medicação é administrada
O lecanemabe aprovado no Brasil é administrado por via intravenosa. A dose é calculada de acordo com o peso corporal e as infusões são feitas a cada duas semanas.
Isso exige uma rotina regular de centro de infusão e acompanhamento médico. Não é uma medicação que a pessoa toma em casa por conta própria.
Riscos e acompanhamento
O principal grupo de efeitos adversos relacionado ao lecanemabe é conhecido como ARIA. Essas alterações podem aparecer como edema ou pequenas alterações hemorrágicas no cérebro e muitas vezes são identificadas nas ressonâncias de acompanhamento antes de causar sintomas.
Algumas pessoas podem apresentar dor de cabeça, confusão, tontura ou alterações neurológicas. Eventos graves são menos comuns, mas fazem parte do risco que precisa ser discutido antes do tratamento.
Por isso, a avaliação inclui ressonância antes de começar e acompanhamento por imagem durante o tratamento. A genotipagem de APOE também faz parte da seleção dentro da indicação aprovada no Brasil.
Acesso ao tratamento no Brasil
O registro brasileiro permite o uso do lecanemabe dentro dos critérios aprovados, mas a disponibilidade prática ainda depende de centros especializados, estrutura de infusão, biomarcadores, ressonância e acompanhamento.
O custo do medicamento e de todo esse processo ainda é um fator limitante. A cobertura pode variar e precisa ser verificada individualmente.
Para uma pessoa com Alzheimer muito inicial, o tratamento pode representar uma possibilidade de reduzir a velocidade do declínio. A decisão precisa considerar o benefício esperado, os riscos, a logística e o que faz sentido para aquele paciente e sua família.
Perguntas frequentes
Leqembi cura Alzheimer?
Não. O tratamento reduz de forma modesta a velocidade de progressão em pacientes selecionados com doença inicial.
Quem pode usar lecanemabe?
A indicação atual é para Alzheimer em fase inicial, com patologia amiloide confirmada e critérios de segurança atendidos.
Como é feita a aplicação?
O esquema aprovado no Brasil é intravenoso, com dose por peso e infusões a cada duas semanas.
Referências
Seleção de referências utilizadas para revisão e atualização do conteúdo.
- van Dyck CH et al. Lecanemab in Early Alzheimer's Disease. New England Journal of Medicine. 2023.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. LEQEMBI, lecanemabe. Registro brasileiro.
- Barbosa BJAP et al. Use of anti-amyloid therapies for Alzheimer's disease in Brazil. Academia Brasileira de Neurologia. 2024.
